quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O custo da insegurança

Pá (um tiro)..... ai, ai ai (gritos) ... pá pá pá pá..... (mais quatro tiros) .... vozes.... silêncio.... meia hora depois, sirene da polícia....

Eu tinha uns 6, 7 anos e isso não era algo de acontecer na rua onde eu morava. Acordava no meio da noite, alarmado pela correria, cobria com lençol a cabeça e ficava pedindo pra Deus que eles não entrassem na nossa casa que não tinha portão e ainda clamava que meu pai não tivesse escutado, e se tivesse escutado que não se levantasse para não correr o risco de ser baleado. Quem mora na vila aprende desde cedo o estrago de um 38, quem manda e quem deve se submeter e a hora certa de não aparecer. No dia seguinte, era passar e procurar o lugar onde havia a poça de sangue que denunciava mais um homicídio.

Isso é algo que não se apaga facilmente da cabeça neurótica de uma criança. No meu caso, fez com que todos os dias da minha infância e adolescência eu quisesse ter uma vida distante daquele mundo. Cresci e na minha adolescência o ato mais rebelde que eu podia fazer era ficar conversando na frente de casa até tarde da noite. Até escutar um dos dois sons inconfundíveis: o estampido de uma bala ou o barulho da lataria velha e do escapamento de uma veraneio verde que invariavelmente parava para nos emparedar. Era o camburão da BM, que não tinha pudores, nem a vigilância dos intelectuais sobre revista a adolescentes. Era estranho, mas me sentia bem com a presença da polícia ali, pois naquela noite não haveria tiro, nem gente morta.

Quando vejo os vaidosos intelectuais e ideológicos utópicos discorrendo teses importadas a cerca de violência e periferia, sem jamais ter vivido num lugar como esse, tenho ânsia de vômito. De teoria sabem muito, mas nunca vivenciaram isso na prática. Ao contrário do que muitos podem pensar, não nasci em uma cobertura na Bela Vista, nem em uma das mansões do Jardim do Lago em Canoas. De todos que eu conheço a história de vida e são legalistas com relação ao tema, viveram uma infância bem menos conturbada que a minha.

O custo real da insegurança não está no valor da grade que a gente coloca na porta. nem no sistema de vigilância para monitorar nossa família, muito menos nos valores altíssimos que pagamos de seguros. O Custo real da insegurança está no rosto do meu filho cada vez que eu estaciono e tiro ele correndo da cadeirinha do carro, olhando para os lados e ele me pergunta: pai, por que tu tá com medo? Pai, por que existem os ladrões?

O custo real da violência tá nas noites de sono perdidas, na insônia que te atemoriza cada vez que eu saio para viajar e pelo suor frio cada vez que eu sei que a minha mãe e a minha Joice estão na rua. O custo da violência está no meu descrédito com relação ao mundo e as pessoas, na minha apostatasia e num sentimento de revolta e impotência. O custo real da insegurança é muito alto e excede a todos os valores que já pagamos para que fossemos suportados pelo Estado Democrático de Direito.





Tem misericórdia dos Gaúchos, Senhor!!!

Há muitos anos que ouço que somos o povo mais idólatra do país e que nosso estado foi pautado sempre por disputas e por um espírito de confusão. Sabemos que as pilastras da democracia sulista se deram por derramar de sangue e pelos ideias revolucionários maçônicos.

- Mas, e agora, Deus? 

Somos opróbrio para todos os povos desta nação. Até os nossos vizinhos catarinas caçoam de nós. Já não temos, nem de longe, a utopia de sermos o celeiro do país. Nossa mão de obra qualificada e a fama de povo honesto e trabalhador já se foi. As marcas de expressão tomam conta de um rosto que vê seus sonhos indo embora com o passar do tempo.

Estamos cada vez mais afundados em dívidas e insolvências financeiras. Nossas grandes empresas fogem daqui e as que ficam estão em estado crítico. Aumento de impostos e arrocho é a única solução para um povo que já não aguenta mais pagar tributos. Não bastasse isso, o terror da violência toma conta das grandes cidades e nossos filhos vivem alardeados e em apuros.

Temos sobrevivido a tudo isto, mas a força implacável da natureza sobre nossas vidas, nossas famílias é peso demais que já não podemos suportar. Não brincamos mais com a situação do nosso clima. Estamos perecendo e vendo as pessoas queridas perdendo todo o quinhão que com luta conquistaram ao longo de suas vidas.

- Senhor, tá demais. Olha com olhos de misericórdia para nós e perdoa todas as dívidas e afrontamentos que eventualmente as gerações deste estado cometeram. O lugar onde haviam promessas de um grande derramar do Espírito, o início do avivamento nesta nação era aqui. E tudo o que queremos agora é um lugar tranquilo, que nos possibilite labutar e sem essa chuva que nos castiga sem trégua.

Leva embora daqui essa chuva, Senhor, pois não aguentamos mais. Acaba com esse ciclo de miséria humana na qual nos encontramos. Dê-nos a chance de recomeçar e que o sol da tua justiça brilhe num cenário de vitória para todos os gaúchos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cristão ou Evangélico?

Semana passada, quando eu e a Joice fomos fazer a internação da Elisa para a cirurgia, nos foi perguntado qual a religião dela. De maneira automática, respondemos:

- Evangélica!

Ao que a atendente nos perguntou:

- Evangélica Luterana ou Evangélica Batista ?

Então buscamos nas raízes da Seara e para não estender muito mais aquele momento, optamos por Evangélica Luterana. Resolvemos a situação, mas aquilo ficou martelando na minha cabeça de maneira muito forte, pois algo que tem me incomodado é o termo surrado evangélico, de modo que sempre que posso uso o termo "Cristão".

Cristão me parece mais socialmente aceito, menos raiz, menos xiita e mais politizado. Se é mais verdadeiro eu não sei, mas me soa melhor ouvir alguém dizendo ser cristão. Passa uma ideia de pessoa mai experimentada na fé e que conseguem discernir melhor o certo do errado e que não se deixam levar pelo vento de qualquer doutrina.  Prefiro pensar que os que assim se consideram, vivem o evangelho da inclusão e não o da segregação, da divisão e da exclusão. Prefiro pensar que esses não chutam os santos católicos, não agridem com palavras os homossexuais, nem acham que os que não pertencem a sua denominação arderão no fogo eterno, mas sempre que possível apresentam a graça redentora de Cristo. Gosto de acreditar que os que se chamam cristãos não são apegados aos cacoetes evangélicos, que não usam de expressões e jargões populares, tais como: " tá amarrado", "só Jesus na causa" e que quando glorificam a Deus, o fazem não de maneira instintiva, mas discernem e arrancam do Espírito uma expressão de adoração e gratidão verdadeira ao Pai.